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19 de janeiro de 2021
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O alambique de Zé Barbosa – Por Domingos Belarmino

O alambique de Zé Barbosa

Para quem sai da cidade de Paramirim rumo ao povoado de Bebedouro, logo após a Escola Agrícola, a única opção para se chegar ao sitio de Zé Barbosa é atravessar de ponta a ponta o Corredor do Arraial de Baixo, margeando pela direita o Rio Paramirim, sob frondosas árvores enroscadas de capim. Um caminho, diga-se de passagem, mais parecido com um sinuoso túnel, ladeado de cercas, entre as propriedades de Dona Ana Rita Cruz e o Zé dos Santos, presentes na história local desde épocas memoráveis.

No alto da ladeira do Arraial de Baixo, à esquerda de quem sobe, ainda hoje bem conservada, a olhar de soslaio mesmo para àqueles que passam despercebidos, uma construção baixa com alguns cômodos à direita bem diferente dos casarões de antigamente, se destaca na paisagem. Ai moravam Zé Barbosa e Dona Nenzinha, o casal vinte dos anos passados. Não tiveram filhos, mas pelo jeito simples de levar a vida conquistaram em volta de si uma legião de amigos. Amigos pobres, ricos, trabalhadores, visitantes, agregados, parentes e aderentes faziam fila em sua residência aos domingo, ora para curtir um dedo de prosa, acertarem negócios, ora pelo prazer de sorverem um gole da deliciosa catita, destilada em seu alambique.

Bem no fundo dessa vivenda, ficava o alambique de seu Zé, um lugar reservado no sitio para o fabrico da cachaça mais famosa de que se tem conhecimento no Vale do Paramirim em tempos passados. Tempos em que nem a cerveja nem os whisky de hoje, nem o vinho do reino e os capilés de antigamente pegavam beirada com ela pela qualidade que ostentava. Não era somente um luxo bebê-la, era mais do que uma obrigação o vendeiro tê-la em estoque para as horas mais necessárias e a satisfação do freguês mais exigente.

Quando se perguntava ao seu fabricante qual era o segredo, simplesmente respondia, o segredo está na cana e a conversa morria por ai. Bem mais na frente, acrescentava, segredo não se conta senão não é segredo. Isso por anos a fio sem propaganda, sem deboche, sem pilhéria, face à seriedade do casal que não media esforços para agradar o visitante fosse lá quem fosse e em quaisquer circunstâncias. Tal era a semelhança entre o produto e o produtor que por analogia a pinga ali fabricada ganhou nos bares e botecos da redondeza o apelido de Zé Barbosa, coisas da cultura popular.

Assim, quando o camarada queria molhar a goela dizia me dá uma Zé Barbosa. O vendeiro já ciente do vocabulário, abria a garrafa arrolhada com sabugo fazendo derramar no “lavrado ” sobre o balcão a água que boi não bebe na dosagem solicitada. Nada mais salutar. Um estalo nos dedos, uma boa limpada na garganta para o inicio de conversa, seguida de outros tragos até a hora de pegar o grude. A pinga de Zé Barbosa, era como se fosse bom bril. Um produto de mil e uma utilidade. Com ela se esquentava o corpo, refrescava o calor, abria-se o apetite, criava coragem, o sujeito ficava rico, solicitava namoro, cantava quem não poderia cantar, brigava com Deus e o mundo e, no outro dia, bebia mais uma para curar a ressaca

Mas o tempo passou, como passa para todos nós. Seu Zé se foi, mais tarde um pouco, Dona Nenzinha o acompanhou na última jornada da vida. O engenho emudeceu, o canavial deixou de florir, cessaram-se as visitas. Alguns amigos de peso também partiram e a catita saiu de circulação. No alambique ja não teve mais o néctar da cana como alimento das abelhas nem a seiva ardente para encher as perobas. Mas o nome da cachaça Ze Barbosa até hoje é lembrado por conta do conceito e da repercussão que conquistou. Vai-se o homem e fica a fama.

Não poderia concluir essas memórias sem agradecer o Site Focado em Você na pessoa do seu criador por continuar publicando imagens do passado que nos fazem recordar lugares e protagonistas da história local que se foram. Parabenizo também o atual proprietário do sitio Zé Barbosa pela preservação da propriedade e o cultivo de novas lavouras fazendo a terra cumprir o seu fim social, qual seja o de gerar rendas e oportunidades de trabalho como forma de garantir meios de subsistência para as famílias que nela mourejam e a consequente produção de alimentos para o bem comum .

Paramirim, 15 de maio de 2020
Prof. Domingos

Texto Postado no Facebook de Domingos Belarmino.

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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