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Paramirim
23 de setembro de 2023
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Os primeiros motoristas de Paramirim

Os primeiros motoristas de Paramirim

Tudo começou lá pelos idos de vinte, quando de repente, o zumbido de um frenético besouro de metal invadiu o espaço.  O desafio estava vencido, era a chegada do primeiro automóvel ao sertão da Bahia. Daí para frente, são lembranças pautadas nos intermináveis casos dispersos no tempo, contados por anônimos protagonistas nos postos de abastecimento, nas pensões, nas oficinas, nos diferentes lugares.  As enormes cargas de algodão e pele conduzidas para terras distantes, o transporte de passageiros rumo a São Paulo, os candangos, os paus de araras, as romarias em Bom Jesus da Lapa, as buzinas orquestradas, a singular figura do carona, os atoleiros esbarrando a viagem, as notícias vindas daqui e de lá. Motoristas e ajudantes cheirando a óleo queimado, os enormes tonéis de gasolina e as curiosas frases de para-choque, a identificar o desempenho e marca de cada veículo, mensagens criadas não se sabe por quem, nascidas na mesa do folclore, adocicadas pelo sabedor popular. Algumas românticas (Beijo de Amor, o Batom das Morenas), outras desafiadoras (O rei sou eu, Nervo de Aço, o rei das montanhas) e até filosóficas (O cavaleiro do destino), todas revelando a linguagem que melhor identificasse a literatura da laboriosa classe dos caminhoneiros com marcantes passagens pelos sinuosos caminhos do campo e das cidades.

Com base nessas lembranças, nessas saudosas lembranças, qual seria a sensação de uma imaginária viagem ao passado, se tivéssemos que fazê-la pelas estradas do sertão, embarcados num fordinho típico da década de vinte? Qual a paisagem que teríamos a nossa frente? Quem sabe um motorista de gravata e boné, fazendo malabarismo no volante.

Qual a velocidade, os pontos de parada, o desconforto, a poeira do caminho. O que, finalmente, nos aguardaria? Seria uma boa experiência ou algo que não valeria a pena repetir? Não aventuramos dizer. A verdade é que imaginária ou não, a trajetória do automóvel no sertão trouxe consigo a marca do progresso e todos que protagonizaram a sua história deram a sua parcela de contribuição para o desenvolvimento da região. O chofer, o motorista, o ajudante, o caminhoneiro, não importa o nome, Paramirim e tantas outras cidades do interior muito devem a cada um e a todos que responderam presente nessa interminável corrida.   Homens simples, heróis, profissionais, amadores, habilitados ou não, a todos que participaram dessa saga, dedicamos a nossa página de hoje.

Uma página e social para homenagearmos os primeiros motoristas de Paramirim. Não se trata propriamente de uma efeméride, mas um relato do que li, pesquisei e ouvi sobre o assunto, desde a chegada do automóvel às Barrancas do Rio Pequeno, por volta de 1925. São fragmentos extraídos de escrituras, certidões de óbitos, cartas, fotos, recortes de jornais, contratos lavrados na esfera administrativa, enfim, tudo aquilo que possa subsidiar um relato mais consistente de nossas memórias, sem desconsiderar jamais o celeiro maior da história que é, sem dúvida alguma, a literatura oral. Assim, juntando retalhos e linhas costuramos o que achamos de melhor para elaborarmos esse texto dedicado aos pioneiros do volante nos rincões de da boa terra.

A começar por uma carta enviada pela prefeitura de Paramirim ao Diretor do Serviço de Segurança Nacional do Ministério da Viação, datada de 8 de julho de 1941, em resposta ao que lhe fora solicitado: ” Em obediência à determinação da Secretaria da Interventoria Federal n’ este Estado, tenho a satisfação de prestar-vos as seguintes informações sobre o serviço de veículos neste Município: 1° – Não existem ônibus no Município; 2°  – Existem apenas dois caminhões pertencente a particular, sendo um de lotação para 50 pessoas e o outro para 20. O primeiro pertence a Antônio Azevedo e o segundo a Octaviano Corrêa da Silva Neves, o qual atualmente não funciona; 3° – Não são realizadas viagens diárias; 4° – O combustível utilizado é gasolina. A capacidade de cada um é, respectivamente de três e uma tonelada; 5°- Existem dois automóveis particulares, um Chevrolet e outro Ford, o que acontece com os dois caminhões supra mencionados, que usam como combustível gasolina. Não existem carros oficiais; 6° – Não há caminhonetes; 7° – Não há tratores; 8° – Existem apenas charrete de duas rodas, à   tração animal, de uso particular; 9° – Não existem carroças; 10° – Existem quatro bicicletas a força humana; 11° – Não existem caminhões destinados ao transporte de mercadorias; 12° – Existem cerca de 850 carros de bois, de uso particular; 13° – Não existem motociclos; 14° – As firmas que exploram o comércio de gasolina e óleo. São: Manoel Flavio Barbosa, Arlindo Guimarães e Otávio Azevedo; 15° – Existem dentro do Município 102 quilômetros de rodovias em terras natural, pertencente ao Município. “

Quanto aos motoristas pioneiros, numa lista  encabeçada por Joaquim Theodoro Sobrinho  (Sinhô chofer), figuram os irmãos Rubens e Azer José Cardoso (filhos de Sinhá da Mangueira), Joaquim Chaves Cardoso (Joaquim de Esmeraldo), Afonso Ribeiro da Cruz (nascido em Paramirim), Antônio Azevedo (residente em Ibiajara), Antônio Leão Cayres (protético),  Celso Medrado da Silva (filho do Cel. Chiquinho), Erico e José  Cayres Cardoso (naturais de Agua Quente) José Chaves Cardoso (irmão de Joaquim de Esmeraldo), José Bernardino Leão Filho (Zezinho Leão), Manoel Messias de Oliveira (Messias de Augusta), 0ctaviano Correia da Silva Neves (Seu Tavinho) e Raul Pereira da Silva (o mais conhecido de todos).

Alguns fulgurando-se proprietários de veículos, a exemplo de Antônio Azevedo e seu Tavinho, este último residente em Rio do Pires, pai de criação do veterano Raul Chofer, outros apenas, prestadores de serviços. A partir da década de cinquenta, aumenta-se a frota do município e novos motoristas despontam-se no cenário sertanejo.

Joaquim Theodoro Sobrinho, o pioneiro, nasceu em Riacho de Santana, Bahia. É filho de Ovidio José Theodoro e Maria Rosa da Silva, naturais do mesmo município. Em 1926, já se achava em Paramirim. época em que se torna motorista e ganha alcunha de Sinhô Chofer, pela qual se tornou mais conhecido. Casou-se com Maria das Dores da Silva (Didi), filha de Aurélio Rochael da Silva e Bertina da Rocha Bastos (Santa Rocha), antiga zeladora da capela São de José. Procriou os filhos José Rochael da Silva (advogado) e Ovidio Rochal da Silva, nascido em 18 de outubro de 1930.  Como motorista foi o autor do primeiro acidente de veículo com vítima fatal do Alto Sertão da Bahia (27 de setembro de 1927). Além de chofer de automóvel foi também dentista prático, tendo ocupado vários cargos públicos ligados à prefeitura de Paramirim. como agente arrecadador, agente de estatística e delegado de polícia. Na década de 40 transfere residência para Caetité, onde faleceu.

Com essa trajetória é considerado o primeiro motorista de Paramirim.

Os demais motoristas que o sucederam também tiveram a sua história. Azer e Rubens. Cardoso se escafederam para São Paulo, os irmãos Chaves e Zezinho tomaram destino. Idêntico, Antônio Azevedo virou dono de farmácia, na antiga Santa Maria do Ouro e Seu Tavinho faleceu em Rio do Pires, após perder a esposa em um acidente de raio. José Cayres se tornou comerciante, Érico Cardoso ingressou na política, foi prefeito de Paramirim e Água Quente, que mais tarde virou Érico.  Afonso Cruz, Antônio Cayres, Celso Medrado, Messias de Augusta e Rual Chofer acomodaram por aqui mesmo, tomaram a terrinha como morada derradeira. Fazer o que né, a história tem suas particularidades, cada passageiro ou motorista tem seu ponto de embarque e

desembarque, mesmo sendo no meio do percurso. A vida é uma viagem, em cada curva uma surpresa. siga em frente caminhoneiro, São Cristóvão é o teu guia.

Paramirim, 11 de. Agosto de 2021

Prof. Domingos

Fonte: Facebook de Domingos Belarmino.

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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