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Paramirim
23 de setembro de 2023
Início Érico Cardoso O primeiro coletor estadual da Vila de Água Quente

O primeiro coletor estadual da Vila de Água Quente

Não temos como informar exatamente quando foi instalada a Coletoria Estadual da Vila de Água Quente. Sabe–se, entretanto, que no governo de Luís Viana, em 1896, foram criadas em diferentes zonas do Estado da Bahia, 144 recebedorias fiscais com o objetivo de impedir a evasão de impostos interestaduais.

Desse total, 55 eram gerenciadas por exatores afiançados, duas por exatores, que não haviam ainda prestado fiança e 48 por simples encarregados. As demais foram instaladas posteriormente. Acreditamos que no rol dessas, esteja incluída a de Água Quente, porque segundo o Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Bahia, em 1898, essa repartição já se achava funcionando nos domínios do Cel. Liberato.

Com a transferência da sede do termo de Água Quente para a povoação de Paramirim, em 1902, as repartições até então ali existentes também foram transferidas para a nova sede. Com o passar dos anos, muda-se o cenário e os protagonistas. Hoje as coletorias fazem parte do pacote de repartições públicas desaparecidas no âmbito nacional. Com a interiorização das agências bancárias e a evolução dos meios de comunicação à distância, sua imagem foi se diluindo, até desaparecer por completo nos anos setenta. Os velhos modelos de arrecadação de impostos foram aos poucos substituídos por novos mecanismos caindo em desuso os talões de notas, a caneta tinteiro, o mata borrão, as escrivaninhas, a máquina de escrever, a calculadora manual, as extensas folhas de pagamento, em quatro ou cinco vias, enfim todo um aparato, que na pratica não mais correspondia à praticidade, a rapidez. Hoje nada supera o mundo digital. Dessa forma, desapareceram a figura do coletor de rendas e dos escrivães e muitas outras profissões, a exemplo dos antigos agentes arrecadadores mantidos pelas

 prefeituras. Só não desapareceram as lembranças que teimam em cutucar a mente daqueles que vivenciaram esse passado e dele guardam

Associado a tais fatos, ainda me recordo da primeira vez que adentrei a coletoria estadual de Paramirim para receber os meus primeiros vencimentos pelo exercício do cargo de professor do estado, devidamente concursado, nomeado e designado para uma pequena escola pública da sede do município. Isso depois de esperar pela divina ordem de pagamento por sete meses a fio e a repartição ter os recursos suficientes para efetuar o meu pagamento. Após assinar uma extensa folha composta de quatro vias (branca, amarela, azul e rosa) sob o olhar atento de um experiente coletor, deixei o local me sentindo dono de uma fortuna conquistada graças sobretudo aos esforços dos meus pais. Por conta disso, me achei na obrigação de dividir com eles toda a bolada recebida, o que fiz de livre e espontânea vontade como forma de manifestar a eles parte da minha gratidão. A outra metade apliquei na construção de um imóvel, onde me casei e construir a minha família. Belas recordaçõesao2s anto aos servidores que atuaram no comando dessa repartição, destaco como pioneiro o tenente Cel. Francisco Viriato Paranhos, mais conhecido por Chiquinho Paranhos, deixando bem claro que as nossas colocações se baseiam em documentos consultados, sem se descartar a possibilidade de outros cidadãos terem a primazia de o antecederem nessa trajetória. A ocupação desse cargo passava pelo crivo da indicação política sem necessidade prévia de concurso público, mas por outro lado, exigia de seus ocupantes uma fiança que extrapolava as condições financeiras dos menos favorecidos. O coletor era auxiliado por um escrivão a quem competia lavrar a escrita do oficio e fazer a contabilidade das receitas e despesas de o movimento financeiro. Nada de mais para os dias de hoje. O difícil mesmo era fazer tudo isso na base da pena antes da caneta-tinteiro e da máquina de escrever.

Francisco Paranhos nasceu no arraial de Água Quente, sede da freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo, em 1877. Era filho de um relacionamento do Padre João Paranhos da Silva com Maria Bernardina da Luz, sendo esta procedente de Curral de Varas, atual, Contendas do Sincocorá, e ele natural de Cachoeira de São Félix, histórica Cidade da. Bahia. Ambos chegaram a Água Quente, em 1870, onde procriou ao todo 7 filhos, 5 mulheres e 2 homens. Seu batismo de fogo na guarda nacional de Rio de Contas no posto de Capitão da segunda companhia do 52° batalhão de infantaria se deu pelo decreto federal de 13 de janeiro de 1899, portanto, aos 22 anos de idade, mas cheio de prestígio por conta da influência política do seu pai que além de vigário foi também deputado provincial e estadual pelo Partido Conservador

Chico Paranhos Integra o grupo dos cidadãos perseguidos pelo coronelismo em Paramirim. Era cunhado do Major Felipe José Cardoso, por conseguinte oposição ao grupo dominante liderado pelo Cel Chiquinho, apelido de Francisco Brasil Rodrigues da Silva. Acusado de fornecer armas para os inimigos deste, foi obrigado a deixar o município. Possuía uma bela morada no alto da Beira da Lagoa e várias propriedades rurais. Era casado com Adélia da Rocha Paranhos com a qual teve os filhos Alice, Carlos, Maria Stela, Adalberto, Adelina e Dulce, todos nascidos em Paramirim. Na década de 20 muda-se para São Paulo, onde faleceu, deixando para trás uma história semelhante a de muitos retirantes que tiveram que abandonar o torrão natal por conta de meros caprichos políticos. Mas nem todo mal é eterno. Nas terras paulistas a família do ex coletor encontrou terreno fértil e na plêiade de seus descendentes muitos se projetaram como cidadãos de bem a exemplo de um de seus trinetos que ocupou o cargo de desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Dessa forma, a coletoria estadual de Água Quente/Paramirim ocupou um espaço relevante na história local, como uma das repartições mais frequentadas dos anos quarenta a sessenta. Nela se resolvia vários papeis, pagava-se impostos, recebia certidões de quitação de natureza fiscal. Era um ponto de encontro para um dedinho de prosa e saber dos acontecimentos mais relevantes. Por ela passaram vários funcionários a exemplo de Alexandrino Rodrigues da Silva ( irmão do Cel Chiquinho ) Clóvis Abreu da Silva  ( natural de Rio de Contas ) Trasíbulo Olímpio de Brito (pai de Antônio e  Ulysses Cayres Brito) Manoel Pedro Lima ( pai da professora Helena Lima, de Caetité ), Possidonio da Silva Quaresma, Herculano Chaves Marins Raymundo Tanajura e Silva, sendo um dos últimos, o Sr Edval Borges da Silva ( Seu Didi ), recentemente falecido na cidade Livramento sem se esquecer que o primeiro deles foi de fato o Ten Cel. Francisco Viriato Paranhos cujas lembranças se encontram estampadas em milhares de documentos por ele  assinado e uma singela placa no logradouro que leva o seu nome no bairro  Beira da Lagoa, onde viveu no tempo em que residiu em Paramirim.

Paramirim, 14 de julho de 2021.

Prof. Domingos.

Fonte: Facebook de Domingos Belarmino.

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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