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26 de novembro de 2020
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Cangaço – Episódio 09 – O Nascimento Do Cangaceiro – Parte 03

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Parte 03

E a vida é assim, cada dia um pouso em lugar diferente; cada momento um significado; cada segundo o risco de ser alvejado. A vida de cangaceiro não tem nada de belo, é dura, pesada, somente homens brutos para suportar tamanha aridez. Você sabe o que é dormir no meio do mato por dias a fio? Com chuva, com calor, com muriçocas a devora-nos, com fome, com sede, ou fugindo dos macacos? Você que está do outro lado sonha, acha que nossa vida tem romantismo, tem beleza. Que nada! Isso aqui é o inferno. Mas quando você escolhe certo caminho, compadre, não há possibilidade de mudar de rota, de voltar ao que era antes; tem que seguir até o final custe o que custar. Foi esta vida que o mundo me empurrou goela abaixo. Por isso sou mal, muito mal, pois é assim que devo ser, não existe outra alternativa para mim, a maldade é o elemento que faz com que meu caminho não se acabe antes da hora, não se encurta, mas que se prolongue bastante.

Resolvi retornar ao meu pedaço de chão para cobrar de certas pessoas o que nos foi roubado a ferro e fogo. Serei perverso, cruel. A vingança deve ser consumida devagar, para dá tempo de descarregar toda a energia negativa que fui acumulando no decorrer dos anos. O mal gera um outro mal, pois todo mal feito será um novo mal em magnitude maior, mal se paga com mal. Volto a repetir: “Se sou cangaceiro, não sou porque quis, mas porque me obrigaram a ser. Sou produto do meio”. Agora isso não interessa mais, aconteceu, vamos viver o que somos até o chamamento final. No passado, ninguém pediu aos demônios para pararem, eles foram cruéis comigo e com a minha família. Não venha neste momento me pedir clemência, para que eu perdoe meus inimigos. Perdoar? Jamais. Quem perdoa pecados é Deus. Estou indo para minha caçada. Aqueles demônios já viveram demais. Se eu tivesse dado cabos deles antes, talvez muitas atrocidades eles não teriam cometidos mais.

Estamos já alguns dias rumo à terra determinada, demora, pois é um pouco longe. Também vamos colhendo pelos vilarejos que passamos dinheiro e algumas joias. É engraçado, quando entramos nos locais o povo corre todo, é um medo louco, os que ficam, os mais avarentos, querem assegurar o seu minguado patrimônio, faltam mijar na roupa. Alguns me perguntam se tenho dó, não tem porque ter pena, a coisa tem que ser deste jeito, faz parte do meu ofício de cangaceiro. Se eu for ter dó sempre, não serei cangaceiro, serei um padre ou outra coisa parecida.

Ontem mesmo dei uma surra em um comerciante avaro que além de ser mão de vaca batia na pobre da esposa e ainda a deixava padecer por fome. Dei-lhe uma lição merecida. Apliquei-lhe uma surra de vergalho de boi. No meio da praça para toda a população assistir. O engraçado é que todos acharam graça, inclusive a pobre mulher. E o avisei para tratar bem a esposa, senão na minha volta ele iria se ver comigo, eu iria tirar o couro dele vivo. Aquele vai cuidar bem da mulher, eu sei que vai, apenas meu nome é capaz de deixá-lo com medo, já que ninguém sabe onde estou agora e onde eu estarei daqui a pouco. Uma coisa todos sabem: “Minha vingança é severa”. Estou por todos os locais do sertão estando apenas aqui neste local. Pela mata seca, pelas serras, pelas veredas, pelas margens dos rios, por todos os povoados lá está o fantasma do cangaceiro, por lá voa meu nome. Quem neste Brasil já teve um poder como eu?  Nem o presidente.

Após andarmos por muitas léguas, entre mato fechado, campos, veredas, enfim chegamos ao destino. Estou eu aqui defronte à residência onde morei com a minha família. O tempo passou e hoje não tenho mais família. Se aqueles homens não tivessem feito aquilo, tudo seria absolutamente diferente. Como fizeram, então estou aqui para cobrar a dívida que eles têm com a minha pessoa. Vou me vingar, foi para isso que estou aqui.

Adentrei à humilde casinha, quase nada mudou, apenas seu aspecto assumiu um tom de velhice. É como um pesadelo, aquelas cenas voltaram como se estivessem acontecendo novamente perante meus olhos. Só fizeram aumentar ainda mais meu ódio, meu gosto pela vingança. Vou cobrar centavo por centavo. Deixei a casa sabendo que era a derradeira vez que estaria ali. Meu coração estava acelerado. A vida às vezes nos dá esta impressão de despedida, despedida dos amigos, dos parentes, de lugares, como esta casa. Precisamos continuar.

No escuro da noite fizemos nossa primeira abordagem, nosso primeiro ataque à fazenda do coronel. Nossa tarefa não seria fácil, pois o coronel possuía muitos jagunços. Iríamos dá início a uma guerra que duraria muitos dias. Já tinha um plano na cabeça, agora chegara o momento de colocá-lo em prática.

Que susto o coronel teve naquela noite escura. Cercamos o casarão dele e mandamos balas. Três jagunços que estavam de bobeira no terreiro abatemos de imediato. Após uma hora de tiroteio deixamos o local, mas antes ateamos fogo em alguns galpões de mantimentos para os bichos, matamos alguns animais e sumimos na escuridão da noite mato adentro. Como não teria ficado o coronel após esta afronta?

No outro dia cedo, uma criança trazia as notícias. O coronel juntou seus homens para nos caçar, com eles também estavam alguns macacos. Nossa tática era simples, esperar pelo adversário em terreno favorável. Iríamos plantar iscas e atrai uma parte dos homens do coronel para algum ponto. Não estávamos com pressa. Já disse: “Vingança é um prato que a gente come quente e devagar, senão perde o gosto”.

Nosso grupo estava bem municiado. Na mata seca éramos feito bicho. Desafia-nos em ambiente assim era suicídio. Mergulhão e Bem-te-vi foram plantar as iscas. Logo os rastejadores, ingênuos do coronel, encontraram as pistas e passaram a ser guiadas por elas. Achavam que iria acabar conosco facilmente. Pobres, estavam caminhando para o inferno, para a morte.

O cachorro deles latiu, foi o sinal de alerta. Com um tiro fiz o bicho quietar para sempre. Os homens do coronel correram para todos os locais procurando se esconder. Seguiu de um silêncio. Eles se agruparam e continuaram a nos seguir. Nosso ponto não seria aquele local, tudo falsificação. Fizemos com que eles imaginassem que ali era nosso acampamento e que saímos a correria. Eles animados continuaram a comer nossas iscas, uma por uma. De repente, pararam a marcha, já era tarde. Estavam emboscados. Alguns dos nossos homens se encontravam em uma pequena elevação, estes começaram a atirar, matando alguns jagunços, os demais ao recuarem foram surpreendidos pelos nossos homens que os aguardavam na retaguarda. Matamos quase todos, uns dois fugiram, deixamo-los ir, para dá a triste notícia ao coronel. Apoderamos de todos os pertences e partimos. Deixaríamos a poeira abaixar um pouco para voltamos a atacar. Vingança é um prato que se come quente, sem pressa, volto a frisar.

Os dias foram passando e retornamos para novos ataques. Minha intenção era apanhar os dois demônios que foram os estopins de tudo isso para dar-lhes uma bela de uma lição. Porém, o coronel recrutou mais homens para a defesa sua e de suas propriedades, a polícia estava do lado deles. Não foi uma boa ideia dá um prazo ao coronel, deveríamos ter atacado logo após a emboscada. Mas estava feito, pronto. Fui obrigado a mudar de plano. O coronel tinha mais de cem homens a disposição. Nós éramos apenas em pouco mais de vinte.

Sem saber direito o passo seguinte, fui surpreendido. Canário chegava arrastando um homem. Ao botar olhos no infeliz tremi todo, meu coração acelerou. Era um dos dois. O sertão tem muitas estradas, mas elas sempre se cruzam. Lembra-se de mim? Ele não se lembrava. Naquele tempo eu era apenas uma criança. Amarrado e ajoelhado diante mim estava o demônio. Pisquei o olho para Sabonete. O cangaceiro quase o matou de tanta pancada. Naquele tempo eu não era muito cruel ainda não. Saquei do meu punhal de mais de trinta centímetro e na fissura da clavícula e do pescoço, no lado esquerdo dele, estando de costas para mim, encravei o punhal até o cabo. A lâmina desceu em velocidade, sem obstáculo nenhum para atrapalhá-la, perfurando os órgãos vitais do infeliz. Esta era um técnica que usávamos para matar, bastante eficiente. Este já não incomodaria mais ninguém nesta vida, mandei-o ao inferno. Que fosse se ver com o diabo. Antes disso tudo, fizemos um interrogatório com o demônio e ele preferiu permanecer quieto. Uma coisa não nego, era cabra de coragem, não pediu clemência e nem esboçou um pingo de medo perante seu destino fatal.

Precisávamos agir novamente. Iríamos atrair uma poção dos jagunços do coronel para mata e travar combate. Se tudo desse certo, ainda no mesmo dia iríamos dá um susto no coronel. Cinco dos meus cabras foram ao vilarejos saquear um pequeno armazém e atrair a atenção das autoridades. Em pouco tempo um grupo de vários homens estavam em nosso rastro. O plano parecia ter funcionado. Ficamos sabendo que o coronel estava prometendo uma alta recompensa para quem desse cabo do nosso bando. Afoitos pela recompensa, eles adentraram insanamente na mata, local onde éramos hábeis combatentes.

Um grupo de seis homens meus atacou pela retaguarda deixando em pânico os jagunços. Pela mata gritos, palavrões, e sons de tiros, muitos tiros. Enquanto estes seis seguravam a atenção dos oponentes, fizemos uma volta e atacamos pelas costas deles. Homens caíram feito mangas maduras quando bate ventania. Minha pontaria estava afiadíssima, não errei um tiro, derrubei uns quatro. Contudo o debando dos poucos que restaram não aconteceu, permaneceram lutando. Eles não sediam, nós não poderíamos ficar naquela posição por muito tempo, mais homens deles, com certeza, logo iriam chegar para aumentar o contingente de ataque. Apitei e em pouco tempo não estávamos mais no campo de batalha, sumimos no mato, todos já sabiam onde iríamos nos reencontrar. Em poucos minutos, um grupo de uns quarenta homens chegava para ajudar seus companheiros. Meu faro estava certo, parecia escutar e entender os sons do mato.

Retornamos ao esconderijo. Para nossa desilusão, ou pela minha desilusão, éramos forçados a abandonar nosso projeto e ir se aventurar por outras bandas. Nossa munição era pouca. Não poderíamos nos arriscar muito. Resolvi deixar o local de imediato, sequer nós preparamos algo para comer, mesmo famintos partimos. Mais uma vez meu sexto sentido nos salvou, os homens do coronel acharam nosso rastro e vinha em nossa procura. Para escaparmos teríamos que lutar novamente. Com munição pouca, teríamos que economizar, gastá-la apenas em momento certo.

Cansados, com sede e com fome, fomos obrigados a travar batalha para depois tentarmos escapar. Escolhemos um local e ficamos a esperar. Eles não tardaram em chegar. Bala comeu solta. De imediato tivemos nossa primeira baixa, Azulão recebeu um tiro certeiro na cabeça e caiu já morto. Também conseguimos imprimir baixas neles. Não poderíamos sustentar aquele fogo por muito tempo, nossa situação era complicada, teríamos que fugir. Apitei, e meus cabras desapareceram mato adentro. Separamos em grupos de quatro e cinco para tiramos o foco deles. Foram uns dez dias andando na mata sem rumo. Nosso grupo conseguiu sair ileso, não sabíamos se os demais também tiveram o mesmo êxito, só voltamos a nos reencontrar dois meses depois em um coito seguro numa região distante da fazenda do coronel, para bem dizer, em outro estado. Perdemos além de Azulão outros dois cabras: Juriti e Beija-flor. Pensa que ficamos tristes, que nada, a vida de cangaceiro era esta, morrer fazia parte do ofício. Fomos em busca de recrutar mais cabras para reforçar nosso bando. O certo é que morri sem cumprir minha vingança por completo. Os dias foram passando e permanecer vivo era a única coisa que podíamos almejar. A vingança foi obrigada a ficar em segundo plano, ou nas malhas estranhas do destino.

Parte 01

Parte 02

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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