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11 de julho de 2020
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Cangaço – Episódio 08 – O NASCIMENTO DO CANGACEIRO – Parte 02

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O Nascimento do Cangaceiro – Parte 02

Você sabe quando você se encontra com você mesmo? Uma sensação única. Parece que o mundo em si se fez esclarecido. Nenhuma dúvida. Apenas a satisfação de viver plenamente sua missão como ser natural.

Não tinha completado os quinze anos de existência ainda, acho que não, não me lembro bem à data, sei que marcou minha vida para sempre. Ouvi um chamado e seguir meu destino. Fazer o quê? Há pessoas que nasceram para tirar a vida de outros. Mas não pense que eu fui mal o tempo todo, era quando a circunstância exigia. Antes de abordamos o chamamento, devo esclarecer alguns pontos que carrego em meu ser.

Por que na vida existem pessoas com dons variados? Uns sabem pintar, outros esculpir, outros mais cantar… Eu, eu nasci com o dom de atirar, de usar o punhal, de ser perverso sem me deixar contaminar pela piedade alheia. Eu não aprendi a ser bom na pontaria, eu já nasci sabendo. Mal peguei na arma e não errava um tiro. Isso é dom ou aprendizado? Quem me via atirando, ou me temia ou ficava com inveja. Neste sertão, acredito que não nasceu e nem há de nascer outro como eu. Há coisas na vida que é assim, só aparece uma única vez e pronto.

Estava eu a cavalgar pela caatinga seca quando escutei meu chamamento. Ouvi uns gritos de socorro. Foi como imã, atração carnal. Quando me dei conta já estava a adentrar em uma humilde residência. Dentro se encontravam dois homens, para mim, dois demônios. Meu sangue ferveu, circulava pelo meu corpo em alta velocidade, estava preste a explodir.

– Larguem a moça! – gritei.

Eles voltaram o olhar para mim. Ao me ver fizeram pouco caso. Minha fama ainda não tinha voado aos quatro cantos, nem eu mesmo sabia que iria um dia ser famoso assim. Era um molecote, diante de dois marmanjos, não era absolutamente nada.

– Larguem a moça, senão…

– Senão o quê, fedorento? – um deles me respondeu com uma indagação e sorrindo. – Quer que eu lhe dê umas palmadas? Aqui é coisa de homem. Saia para lá enquanto a coisa não fede para o seu lado. Suma! Desaparece!

Um segundo e uma bala voava em direção a cabeça do homem. O outro ao sacar a arma recebeu também outro tiro na cabeça. A moça, que chorava com medo dos dois, passou a gritar de pavor pelo que aconteceu e por ver os dois demônios mortos aos seus pés.

A mãe e o pai da moça apareceram, estavam no quarto com medo. Saíram gritando de pavor, de medo.

– O que será de nós agora? – gritava o pai. – O coronel irá mandar seus homens dá cabo de nós. Meu Deus do céu, como isso foi acontecer?

– Calma, homem – gritei. – Deixa de ser medroso. Você deixou estes demônios abusar de sua filha, por medo, ou quase abusar, deu sorte que cheguei antes do acontecimento. Medo? Para que medo? Todos nós iremos morrer um dia, tendo ou não medo. Pois eu comprei a briga de vocês. Vou enfrentar este coronel.

– Você é uma criança – refletia o pai da moça. – O que você fará diante dos muitos homens do coronel?

– Vou matar todos eles.

– Você é apenas uma criança, lá são muitos homens. Vou parti com a minha família antes que seja tarde demais.

Pai, mãe e filha pegaram alguns cacarecos e se mandaram no mundo. Nunca mais os vi. O sangue esfriara e meus pensamentos voltavam à normalidade. Olhava para os dois quietos, mortos, e pensava como fui capaz de tudo aquilo. Uma criança da cabo de dois demônios tão rapidamente. Montei em meu cavalo e parti. Por incrível que pareça, não sentia remoço, não sentia nada. Não sei explicar, mas foi assim.

Em poucos dias, homens estavam à minha procura. Não sei como eles ficaram sabendo que havia sido eu o matador. Tive que deixar minha casa no povoado juntamente com meu amigo, meu irmão já tinha ido procurar outro meio de vida em uma região longe. Nossa casa passou a ser o mato. Precisava encarar os cabras do coronel, mas primeiro iríamos deixar o traste do coronel furioso. Buscamos alguns amigos e formamos um bando. Éramos em dez.

Primeiro ataque nós matamos vários animais da fazenda do coronel e tacamos fogo em uma casa, nas cercas de uma propriedade. O coronel furioso colocou todo o seu pessoal em nossa busca. Foi aí que começamos a montar nossa estratégia de luta e de sobrevivência. Ficamos pacientemente a aguardar o bando de jagunços passar por certo local favorável a nós, iríamos emboscá-lo, uma tocaia. Caíram feitos patos. Em poucos minutos de tiroteio, matamos uns oito deles, os outros correram com medo. Apoderamos dos pertences dos finados jagunços e partimos. Percebemos que o crime compensava. Muito dinheiro, armas e munição.

Logo, além dos homens do coronel, policias estavam em nossa perseguição. Nossa fama começava a crescer. Naquele momento, já carregava nas costas várias mortes.

– O que você sente ao matar uma pessoa? – indagou certa vez meu amigo a mim.

– Nada. É o mesmo que se eu estivesse atirando em um bode, ou uma galinha.

– Você tirar o bem mais precioso dele, a vida. Tirar o presente e o que ele poderia acumular no futuro. Não dói no coração, não?

– Eu não tirei nada deles, apenas estou preservando o meu presente e o meu futuro. Se eu não os matasse, eles não titubeariam em me matar. Entre eles e mim, fico comigo.

Entramos em uma vila. Lá fomos a um boteco, os homens bebiam à vontade, eu apenas observava tudo.

– O que uma criança faz no meio destes homens? – perguntou um senhor curioso. – Você quer ser como eles quando crescer?

– Quero não, já sou.

– Meu Deus, uma criança já fazendo uso de armas. Já matou alguém?

– Claro. Várias pessoas. Sou bom no gatilho. Pensa que estou mentindo. Veja só. Vou acertar naquela ferradura lá na porteira.

– Duvido que você acerte. Está muito longe.

Atirei e a ferradura caiu. Os homens pularam pensando que já estávamos em batalha.

– Acalma-se, foi apenas uma demonstração.

– Você é mesmo bom no tiro. Não sei se esta vida será boa para você.

– Homens, preparem-se que vem chegando macacos, e são muitos.

O velho correu e nós saímos pelos fundos em busca de um local adequado para nos defendermos. Nossa tática é só confrontar quando a situação for favorável a nós, não podemos gastar munição à toa. As coisas são difíceis de serem adquiridas no sertão. Penetramos no mato, deixando para trás nossos cavalos cansados. A polícia e os jagunços do coronel estavam sempre em nosso rastro.

Por mais que desejamos vingar, nem sempre é possível de imediato, temos que ser pacientes e aguardar uma oportunidade. Volta e meia a oportunidade chega. O sertão é grande, contudo os caminhos sempre se cruzam. A vontade de retornar a minha terra natal era enorme, o momento estava próximo, breve voltaria, no entanto para atacar e não para ser escorraçado feito cachorro vira-lata. Minha fama crescia, meu nome de cangaceiro virava arte na mente dos artistas sertanejos, virei personagens de cordel. Para quem não era nada, para quem não teria futuro, em pouco tempo conquistei bem mais do que o meu imaginário um dia imaginou. Eu era, enfim, respeitado.

Autor: Luiz Carlos Marques Cardoso.

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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