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15 de julho de 2020
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Cangaço – Episódio 07 – O NASCIMENTO DO CANGACEIRO

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O NASCIMENTO DO CANGACEIRO

O senhor quer saber o meu nome? Não importa o meu nome de batismo. Sou Antônio, sou Livino, sou Ezequiel, sou Virgulino… Na nossa vida do cangaço nosso nome se lança as ribanceiras dos rios e o deixa descer até se perder pelas bandas do mar. Aqui, o que vale é sua acunha de cangaceiro. Mergulhão, ponto fino, moderno, corisco, labareda, candeeiro, jararaca, moreno, sereno, Lampião… Sou um cabra, sou danado, sou perverso… Esta foi a vida que escolhi. Não! Não escolhi nada. Fui lançado neste negócio e nele me dei bem. Tem profissão que a pessoa entra e não consegue mais sair, só se safa morto no tiro ou furado a punhal, a de cangaceiro é uma delas. Se sou feliz? Tem como ser feliz num ambiente assim? Apenas vivo. Será se esse povo manso dos povoados são felizes com tantas necessidades e privações? São miseráveis igual a mim mesmo. Muitos deles vão ter morte nos moldes das que nós temos. Nos sertões vivem-se como bicho, morrem-se como bicho, pois não passamos de feras brutas em busca da sobrevivência.

Vou contar para vocês o começo de tudo. Não tenho o porquê de esconder minhas verdades. É bom que o mundo fique ciente, saiba nos pormenores o que me fez tornar-se um homem do cangaço. Nasci em família pobre, como a maioria que por esta região nasceu. Meu pai trabalhava na roça, minha mãe tomava conta de nós e também labutava com a pequena criação. Desde cedo, conheci a face sinistra da fome. Éramos esqueletos andantes. Como não conhecíamos outra realidade, achávamos que o mundo todo se copiava como o que convivíamos. A miséria povoava tudo isso. E onde a miséria impera a luta, por qualquer coisa, nas muitas das vezes, tem que ser enfrentada com armas e unhas. Uma banana tinha peso de ouro. Não tivemos escola, nossos professores eram os perversos que por todos os lugares perambulavam distribuindo suas perversidades. Para sobreviver fomos forçados a sermos mal. O mais mal era o mais afortunado.

Antes de mim não havia cangaceiro, fui o primeiro, fui a semente de toda esta praga. Todavia, as pragas também são necessárias para o equilíbrio. Você quer que eu me explique melhor? Contra a força avassaladora dos coronéis brotaram a fúria dos cangaceiros. Aqueles que reinavam soberanos foram obrigados a se curvarem perante o poder destes. É o mal aniquilando o mal para quem sabe germinar deste esterco uma perfumada flor.

Lembro-me como hoje. Estávamos em casa: eu, minha mãe, meu irmão mais novo e minha irmã mais velha, ainda nova, quase criança. De repente, adentra três homens, bravos, armados, suados… Que cena terrível, nunca se apagará de minha mente, nem mesmo depois da morte. Procuravam por meu pai. Diziam ser a lei. Vinham cobrar dívidas. Aquele terror durou mais de horas. Um amarrou minha mãe na cadeira e dizia que iria matá-la. Era tortura pesada. Eu chorava muito. Recebi um tapa no rosto. Fui lançado ao chão. Doía tudo. Se eu tivesse força naquele momento, se eu tivesse uma arma, se… O ódio tomou conta de mim, e nunca mais saiu do meu coração. Basta eu lembrar daquela cena para a fúria tomar-me o corpo. O pior aconteceu com a minha irmã, os três, um após o outro desonraram-na, as vistas minha, de minha mãe e do meu irmão pequeno. Por que fizeram aquilo? Só em pensar, o nervoso é tamanho que corre água dos meus olhos. Fomos obrigados a largar tudo e sumir no mundo. Meu pai me disse depois que eles vieram a mando de tal coronel, eles queriam o pequeno pedaço de terra. Como não tínhamos homens em armas para defender o que era nosso, fomos forçados a deixar tudo para eles. Eu ainda não tinha dez anos, mas já sabia que minha vida seguiria um caminho diferente após tudo o que presenciei. Meu pai era manso, talvez medroso. Passei a quietude, pouco conversava, apenas mastigava a todo momento aquelas imagens, o tabefe, os homens em cima de minha irmã, minha mãe amarrada. Nessa nossa viagem, de fome e sede, minha irmã teve a ingrata sorte de ver crescer seu ventre, engravidara de um daqueles três demônios. Quando do parto, um padre acolheu-nos em sua igreja em um comunidade, como ela estava muito fraca pela fome e pelos padecimentos da viagem, morreu no parto, contudo a criança teve a ingrata sorte de nascer para sofrer neste mundo demoníaco em que nos encontrávamos. Não conseguir ter ódio do bebê, queria, no entanto via nele mais um sofredor. O padre ficou com a criança, não tínhamos condições de levá-la, iria perecer.

Perambulei dos oito aos quinze anos de idade. Vi minha mãe morrer fruto da fome e meu pai ser morto por um tiro na loucura da fome ao tentar furtar uma raiz de mandioca no terreno de alguém para nos alimentar. Ficamos eu e meu irmão menor. Para onde ir? O que fazer da vida? Precisava viver o bastante para cuidar do meu irmão e arquitetar a minha vingança. Iria vingar. Era a única coisa que me fazia ficar de pé, de enfrentar tudo, iria vingar e estava acertado. Mas como? Pois não sabia nada. Mas na vida quando procuramos por algo, o algo vem em nosso encontro. Foi em um bar que encontrei um homem, ao me ver foi como uma atração pelo olhar. A maldade dele buscava no brilho dos meus olhos a maldade que eu iria ter no futuro próximo. Ele nos deu o que comer e beber, levou-nos para sua residência. No outro dia, ele já estava me ensinando a atirar. Viu que eu teria futuro, era bom na pontaria. Meu irmão era diferente de mim, pacato, ordeiro. Meu amigo arranjou um lar para ele. Em pouco mais de um ano estava preparado para o ambiente em que me encontrava. O povo já me respeitava. Esta dupla vinha pondo terror nas redondezas. Aprendi a domar cavalo bravo, pegava boi na caatinga. Chegava a hora do regresso para o acerto de contas.

Autor: Luiz Carlos Marques Cardoso.

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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