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21 de outubro de 2020
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ANTÔNIO CARLOS DE JESUS O NOSSO COQUINHO – Por Antônio Gilvandro

A terça-feira, dia 22, quedou-se sombria! Entristecida, ela deparara-se com o passamento de Antônio Carlos de Jesus Correia, nosso muito estimado Coquinho. Tomou-nos de surpresa, pois não imaginaríamos que ele partira ainda tão cedo! Para tantos de nós e a sua família, aquele “menino grande”, no cantar célebre de Nora Ney e de Ângela Maria, tocou os nossos corações! Ganhou-nos, desde então, pelo seu viver simples, despretensioso, indiferente à hipocrisia da vida social burguesa e cruel. Fez muito? Teve história recheada de feitos e triunfos? Com certeza não! Conquistou-nos, numa naturalidade tão natural que chegou a fazê-lo singular! De lar bem humilde, filho foi de Maria Odete de Jesus, conhecida familiarmente por Maria Coquinho. Este epíteto, que veio para alcunhar uma figura notoriamente folclórica, estendeu-se até esse jovem que o recebeu como distintivo. Por que, então, o apelido de Coquinho? A olho nu, ver-se-á que a matriarca tem a caixa cerebral, à forma de um coco, o que daí nasceu a alcunha que se lhe marcou a identificação, conduzindo ela esse termo árabe que se lhe tornou um vero sobrenome! E aí, o Tõe de Maria de Coló, passara a chamar-se, por seus parentes e amigos e colegas de “Tõe Couquinho”, ou simplesmente “Coquinho”! Aquele garoto nimiamente pobre veio a estudar, concluindo o segundo grau. De uma caligrafia muito pomposa, que dava ares de escritores clássicos, apesar disto, pairou-se aí! Entretanto, o que se lhe destacou não foi tanto a cabeça que lhe parecia um diminutivo! Foram, antes de tudo, seus pés, membros que vieram difundir tantas alegrias e vibrações positivas. Fez de seus pés a grandeza da cabeça que se transformava num verdadeiro astro dentro do campo! Tive a felicidade de convocá-lo a fazer parte da equipe do Esporte Clube Cosmos, time que ajudei a dirigir por dezenas de anos! Ao lado de outros atletas do nosso time, como Chico e Paulo de Mino, Chuviá, Dão de Osório, Valdir, Balaio, Eduardo e Robertinho, Zé Cebolinha e mais outros, fizemos as tardes de Paramirim embevecer-se com a agilidade e inteligência daqueles atletas que, o tempo todo, honraram os eventos esportivos de nossa Cidade! Foi uma consagração irrepetível e que, sem sombras de dúvidas, não há similares! Existe, sim, um tempo antes e depois do Cosmos! Foi aquele time um divisor de águas desportivo de nosso Município, inclusive tornou-se a fonte inspiradora para a existência, hoje, do Estádio Roseirão, quando o saudoso Prefeito Durval Leão, grade torcedor de nossa Equipe, e, num dia de junho de 1986, assistindo a uma partida Cosmos versus Fluminense de Feira de Santana, onde ele como Alcaide e Benfeitor Desportista, deu o chute inicial na bola, após o desempenho Brilhante daqueles jovens, chamou-me e me autorizou a escolher uma área para a construção de um Estádio! Daí a origem do Rosierão que, talvez, uns poucos sabem, todavia, a história é fiel! Justamente, naquela partida, Coquinho, como sempre volátil e dinâmico, foi uma das estrelas que cintilou, no cenário esportivo daquele certame! No entanto, não se demorou muito e noutro encontro futebolístico o jovem Coquinho Sofreu uma luxação no tornozelo, o que procuramos levá-lo a Feira de Santana, Bahia, onde meu irmão ortopedista, Dr. Dilermando Martins Neves, atendeu-o e fez os procedimentos necessários, recomendando-lhe, por um tempo, repouso absoluto, inclusive imobilizando seu pé com uma bota de gesso. Ficamos lá, por 12 dias, mas, quando retornamos, aconteceria a tradicional festa de largo carnavalesca e o Coquinho, motivado pelos impulsos de uma alma jovem, retirou, por conta própria, o invólucro imobilizador, a fim de cair na folia! Adquiriu, por isso, um impasse membro afetado, o que não o possibilitou exibir com maestria, nos nossos campos, a mágica um futebol que veio imortalizá-lo! Dessa forma, a lacuna deixada pelo afastamento involuntário daquele atleta ficou doravante impreenchível. Contudo, sua figura nunca passou ao esquecimento. Sua ausência não olvidou nos corações paramirinhenses, máxime dos desportistas, os dribles e ataques do nosso Mané Garrincha de Paramirim! Com razão afirmava o pesador Júlio Aukay que “Quem foi rei nunca perde a majestade!”. Apesar de tudo, o nosso Coquinho, deixando obrigatoriamente o futebol, não abandonou o espírito esportista. Aliás, muito eu admirava pela sua delicadeza e cortesia no trato das pessoas! Não me recordo, nos tempos cosmistas, que um juiz se lhe reclamara, por um gesto desleal, durante a partida ou treino! Era aquele meninão sem maldade que fazia o esporte por ideal e ideias.  Amigo fraterno dos colegas, tratava-os com carinho e hombridade. Era altamente educado! Nunca ouvi alguém falar que dentro ou fora de campo, ele agia, de modo agressivo. Por isso, reputava-o seguro, já que, segundo o psicanalista suíço Carl Jung, “a agressividade é uma manifestação de insegurança”.  Com todos esses valores que os descobri, desde à época em que ele expunha-se no gramado, infelizmente, esse atleta passou, bem parte de seus últimos tempos, despercebido! Sentia-o tristonho! Apesar de inteligente, não lhe fora dada uma oportunidade para que ele se deslanchasse, de outros modos. Com o curso médio completo, não chegou às suas mãos um convite para reger uma classe ou executar ações condizentes à sala instrutorial. Pelo menos, nunca ouvi dizer, se qualquer de nós tomamos a iniciativa para ajudá-lo a buscar o verdadeiro sentido de sua vida. Naquele silêncio, caladez, numa aparência sorumbática, foi o clima diário de seus últimos tempos. Tomava seus aperitivos; às vezes, exagerava-os. Ainda assim, ninguém o soube que ele usou deste artifício para atingir alguém ou a praticar alguma coisa! Viveu a sua vida modesta, sofreu certamente no íntimo de seu coração, mas sempre mostrava que estava em paz! Na realidade, foi uma vítima deste mundo cão, deste universo de privilégios, onde alguns poucos têm uma vida suntuosa e nababesca, com empregos tantos que precisariam ser transportados em uma frota de reforçadas carretas, brigando ainda para ter mais!!! Enquanto isto, os Coquinhos da vida, valorosos, sem corações anestesiados pelo ódio e pela ganância sucumbem-se, em pleno desabrochar de sua existência!!! Eta mundo cão!!! Tinha razão o escritor britânico C.S. Leuvis, quando advertia: “Nós dizemos que as pessoas sentem orgulho de serem ricas, inteligentes orgulho de serem mais ricas, umas inteligentes ou mais bonitas do que as outras. É a comparação que faz uma pessoas sentir orgulho: o prazer de estar acima das demais”. Pois bem, meu amigo e afilhado Coquinho! Mesmo tendo você recebido tanta desatenção, você foi e está sendo mais feliz do que aqueles que se afogam na gula e na avidez do poder transitório! Como foi dito no início desta minha conversa, todos só lhe conheceram por Coquinho! Muitos e tantos ignoraram que você trazia consigo o nome do Padroeiro Forte e seu Excelso Xará Santo Antônio! E mais que isto o sobrenome de JESUS, “Aquele que disse que o que fizeres a um desses meus mais pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mateus 25,40).

Apelidaram-no de Coquinho, por sinal, um título que não lhe foi pejorativo, depreciativo, irônico! Analisemos o coco, fruto corriqueiro dos pomares e dos sítios. Ele possui a casca para encobri-lo! O bagaço para amortecer os embates dos depredadores! O Coité para acolher o líquido! E a água para saborearmos a sua delícia e sorvermos a sua eficácia medicinal! Eis você! A casca lhe protegeu contra os desafios de uma vida pobre! O bagaço amorteceu sua alma, onde nunca teve lugar para a vingança! O recipiente da cuieira ou do coité foi seu coração, que sempre abrigou e protegeu seus sentimentos de delicadeza! E a água, que é vida, fez gerar em você a limpidez de seus sentimentos! Por isso, amigo e dileto afilhado, sinto-me, nesta hora, o dever de vir a público agradecer-lhe pelo que muito você me cooperou, ajudando-me a trazer alegria a tantos torcedores e desportistas, em tantos encontros que se transformaram em encantos, nos dias futebolísticos do campo da lixa e do Roseirão! Muito obrigado, por ter sido você um dos baluartes da cultura, a cultura a que sempre me predispus, como a meta e ideal sublime, não uma cultura balofa, carcomida pela superficialidade, etérea, sem localização e estrutura, que, na realidade, é aquilo que a Bíblia, no livro do Eclesiastes, 2,17, considera“como correr atrás do vento.” De longas datas e de “priscas eras”, recordando a expressão do poeta português Luís de Camões, você, seus colegas futebolistas, os veros cesupenses, os pobres, os que não têm voz nem vez, o povo que pensa e tem testemunhas de gratidão enfim “quem não tem olhos na nuca”, como assevera o sociólogo argentino José Ingenieros, todos têm de mim um afeto sincero pelo que, na minha humildade, despojamento a visão, “além, muito além daquela serra” (José de Alencar, in Iracema), motivo pelo qual escrevo sobre você, numa prova insofismável de que não subestimo ninguém que, desta ou daquela maneira, cooperou pela felicidade geral do povo. Se ultimamente você não pôde, por qualquer circunstância, empreender mais alguma ação, pouco importa! O importante é o que você fez e foi! Com absoluta convicção, creio que lá mais perto de Deus, você buscará jeitos de enviar para nossa terra um mundo de felicidades, driblando, como naqueles velhos tempos, a hipocrisia, a bondade de última hora, o ideal do “venha a nós e ao vosso reino nada”,  como cantava Nelson Gonçalves. Ainda, repetindo a minha certeza, você voltará sorriso nos lábios pois, como dizia Dom Bosco: “um santo triste é um triste santo.” Daí, onde você está, baterá palmas, na hora em que vir Maria de Coló e de Coquinhos, sua excelsa Mãe, sapatear com as gingas de uma das maiores sambadeiras do nosso reisado, ao lado da centenária Flora, num gesto que vem embelezando o nosso cenário cultural, pelos tempos em fora! Vá firme, meu amigo e afilhado! Você sofreu os reveses e os contratempos de uma vida, eivada de dificuldades, toda ordem! Você se foi, numa terça-feira, dia em que, ao longo dos anos, recordamos o nosso Santo Xará, aquele que proclamou que “a caridade é a vida da alma!” Você nutria um amor sem medidas a Santo Antônio, sendo o primeiro a chegar à alvorada do dia 1º e, à noite participar da missa! Você confiava totalmente nele, tendo a imensa certeza que ele iluminou o orbe universo e ainda o ilustra com coruscante luz! Agora, você está feliz com ele e ele lhe recompensará todo amor que se lhe foi dedicado! Já repetir várias vezes e faço-o agora, de novo: mesmo sendo humilde, você distribuía com os que não tinha condições o seu apoio, o seu irrestrito apoio! Insisto em dizer: você fez e foi!

Concluo, lembrando-me de Santo Inácio de Loyola: “Uma grande quantidade de caridade pode ser feita no mundo se aqueles que a fazem não estiverem muito preocupados com quem leva o crédito”.

DEUS LHE PAGUE!

QUE A TERRA LHE SEJA LEVE!

Antônio Gilvandro Martins Neves

Advogado-Paramirim-Bahia

Luis Carlos Billhttps://focadoemvoce.com/
Luiz Carlos Marques Cardoso (Bill) trabalha de forma amadora com fotografia e filmagem. Ele gerencia atualmente dois sites: um de notícias e um pessoal. Está presente nas redes sociais, como no Instagram e Facebook, e tem um canal no YouTube com uma variedade grande de vídeos referentes à região da Chapada Diamantina e do Sertão brasileiro. Sua formação profissional é a de Contador.

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