Sítio de Pinturas Rupestres Caraíbas Paramirim Bahia "Abrigo Tomaz I, Caraíbas, Paramirim, Bahia"

Espedição a Caraíbas.

    Recebi um telefonema. Pronto. No dia seguinte estava indo eu rumo a Caraíbas (povoado pertencente à Paramirim). Fernando Bonetti e sua esposa Lucia haviam combinado com João Luis para irem conhecer alguns Sítios na região. Bonetti me indagou por telefone se gostaria de compor o grupo, não hesitei.
    Bonetti e Lucia saíram de Rio de Contas, cidade onde estavam hospedados, buscou-me na sede de Paramirim, para depois voltarmos ao povoado onde João Luis reside. João, como ele mesmo conta, se apaixonou pelas pinturas ao deparar com o Sítio Barrinha. Pensou em primeiro instante que as artes indígenas fossem frutos de vândalos. Quando tomou nota, quando soube do que se tratava, passou a buscar novas informações de possíveis outros sítios. Por sinal, ele possui dois artefatos indígenas, expostos em seu Museu, ao lado da sua residência. Duas pedras confeccionadas pelos indígenas para seus afazeres diários.
    Paramos na porta da casa de João Luis. Entramos para um café. Ele nos mostrou seu quintal, um pomar; ao fundo a linda Lagoa de Caraíbas. Conversamos sobre temas a respeito das pinturas. Conhecemos a família dele. Saímos para as visitas aos Sítios já depois das dez. Nossa meta é visitar quatro Sítios.
    Passamos na morada de Pedro para que ele servisse-nos como guia. O rapazinho conhece como ninguém a região, o pai dele é proprietário do terreno. Deixamos o carro, agora seria somente com as forças das pernas. Vencemos uma cerca e pomos a caminhar. Os umbuzeiros nos convidavam a todo o momento para colher seus frutos. Frutos doces aqueles, as lembranças faz com que minha boca salive. Após um período de pasto, boi a vista, pássaros nas árvores a cantar, entramos em capoeira verde. Desviávamos, abaixávamos, ia para lá e para cá, sempre em subida.
    Chegamos ao primeiro Sítio. João Luis o intitulou como “Tomaz 1”. Um abrigo, ele se estende para fora, embaixo dá para passar chuva. A altura se eleva acima dos dez metros, a largura de mesma metragem. Muitas pinturas que ali um dia existiu, por força dos fenômenos naturais, hoje se encontram praticamente apagadas. De algumas sobraram apenas pedaços. Uma me chamou a atenção, um sol. Tem o tamanho de dois palmos, quarenta a cinqüenta centímetros. A cor é branca. Estar em ótimo estado.
    Retornamos ao campo aberto. Já passava das treze horas. Paramos para lançar. O novo Sítio seria bem ao lado do Tomaz 1. João o designou de “Tomaz 2”. Nesse percurso de mato ralo paramos frente a uma árvore de médio porte. Um enorme ninho foi feito usufruindo seu gancho. Segundo João seria de seriema. Ele fez questão de subir para conferir se estava povoado por filhotes ou ovos. Havia dois filhotes. Passei a maquina para que tirasse uma foto. Desceu e continuamos nossa busca. Bonetti e Lucia resolvem ficar e nos esperar, pois João nos avisara que seriam apenas três a quatro pinturas. Subimos em passos rápidos. Pedro na frente, João logo atrás e eu na rabeira. Pedro avisa que acabara de ver um mocó. No alto da grande parede, João aponta um enxame de abelhas. O abrigo tem muita aparência com o Tomaz 1. Dobra a altura e a largura. Esse é menos rico do que o outro em pinturas. Nítidas são cinco. Um lagarto de cor branca, um macaco de cor vermelha e três sapos ou coisa assim de cor preta. Há indícios de outras, mas estão quase todas apagadas, não dá para tecer idéias. Deste ponto a vista rumo ao nascer do sol é espetacular, um belo e verdejante vale se abre como uma linda obra de arte dos pintores românticos.
    Descemos com rapidez de suçuarana. Bonetti e Lucia descansavam sob grande sombra. Havia ainda dois Sítios para irmos conhecer. Deixamos Pedro na porta da sua residência. Erramos o caminho, saímos frente à cerâmica. Voltamos à Caraíbas para depois irmos rumo a Curral Velho.
    Após quatro quilometro de estrada de terra paramos logo depois de uma pequena ponte. A estrada continua morro acima, rumo a Curral Velho. Da serra desce um riacho. No lado oeste se encontra o “Sítio Riachinho”. São poucas pinturas, para vê-las você precisa escalar uns dez metros. As pinturas, por razão das infiltrações da água da chuva, estão quase desaparecidas. Muitas sequer esboçam o que já foram.
    Bonetti engatou a macha ré e fez a manobra. Um casal parou com a sua moto, pessoal de Érico Cardoso, estava no Curral Velho, conversamos e logo eles seguiram viagem. Retornamos uns dois quilômetros. Paramos frete a um curral. Corri a uma árvore de nome Pitombeira para roubar alguns dos seus amarelos frutos, Lucia me seguiu. Voltamos ao curral. Entramos na manga (nome referente ao terreno onde deixa o gado pastar) e logo adiante paramos para olhar em uma rocha. Alguns riscos já totalmente apagados, apenas sobraram vestígios. Mais a frente um abrigo de uns trinta metros de largura e uns cinco de altura, seu nome, “Sítio Barrinha”. Olhando de perto se percebe muitas marcas de pinturas, no passado essas paredes estiveram forradas delas. João conta que nesse local viveu um rapaz que tinha problemas mentais. Junto ao rapaz, ao sol da tarde que incide diretamente nas rochas, do vento e das infiltrações levou a deterioração desse Sítio. Em poucos anos só restará o amontoado de rochas.
    Voltamos à casa de João. O relógio já marcava dezoito horas, horário de Deus, a noite já empurrava com toda sua força os raios da luz solar. João abriu o museu. Fui ver seus objetos. As duas pedras, testemunhas ocular, junto com as imagens das pinturas, do passado vivo e povoado por seres que aqui chegaram antes de Colombo e Cabral. Na fiação elétrica andorinhas rabo de tesouras posavam e voavam a todo o momento. Faz tempo que não as viam.
    Bonetti então se dirigiu a sede de Paramirim. Já era noite quando desembarquei em casa. Eles desceram e fizeram um breve lanche. Saboreou uma iguaria da Caatinga, um doce de umbu, ou umbuzada. Voltaram para onde estavam hospedados, Rio de Contas.
    Ficou a saudade...

Luiz Carlos M. Cardoso

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